sábado, 5 de outubro de 2013

Trapo

Todas as cores do mundo  nos frascos de shampoo amontoados na basculante do pequeno banheiro. Borbulham espumas nos cabelos enquanto ela chora sentada perto do ralo de plástico, os azulejos são velhos. 
Levanta. A toalha já parece pano de chão. Esfrega o corpo como quem lava panela grudada. Há muito peso para tirar, mágoas de tudo que ouviu. Deu tudo de si e ficou ali, trancada na menor peça do quebra-cabeça. 
Passa a mão no bafo do espelho. Vê o rosto desforme. Gira a chave. Enrolada no trapo toalha está pronta pra enfrentar o mundo.

Exaustor

A sujeira do exaustor, a lasca tirada do canto do prato, o pano encardido. O verde mofado no pão e no queijo, o verde germinando na cebola da gaveta. 
Escolhe a faca, abre a torneira, a água é transparente. Olha para o próprio pulso, limpa a cebola e corta. Chora. 

Carmim

A claridade invade a vida antes do horario combinado pelas frestas que sobram na janela. Desperta para o dia, ainda é hora pra ser noite. O quarto verde-hospital guarda lembranças sonhadas, uma vida na gaveta de lingeries.
Escova os dentes e os cabelos nos circulares movimentos de sempre, abotoa a camisa carmim como já fora o batom. toma o café e mastiga lentamente um biscoito água e sal.
Liga o rádio. Não há previsão de chuva. Olha o relógio. É hora de descer, ir para a praça, esperar o ônibus, vagar sempre sem rumo. Mas na linha certa.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Espera

O barulho das crianças é trilha sonora da pequena cadeira que habita a sala. Vive perto da escola. Há anos. Há tantos anos sozinho, naquele apartamento com o lustre verde e vermelho pendurado. 
Os livros formam montanhas próximas as paredes amarelas. Os armários cheiram a mofo. As idéias cheiram o mofo. 
Senta na cadeira, abre um livro, espera mais uma vez o amor que nunca chegou.

Do lado de dentro

Do lado de dentro, o teto desaba em nossas cabeças. Esperanças perdidas no apartamento abandonado.
O tempo leva tudo, deixa marcas na parede descascada, na cozinha com as lajotas de um século que acabou. A família desfeita. 
Recomeçar. 

Do lado de dentro, o coração bate forte. 
Ele explica as dores e cores de um passado que se perpetua em cada peça, em si mesmo.
Prisioneiro.
Tenta ser livre.

Do lado de dentro, o coração bate forte. 
Em cada passo, em cada peça imagina se um lugar com tantas memórias terá espaço para as dela, as deles, os móveis, utensílios domésticos e todos os sonhos que  juntos ainda irão sonhar. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Soco no ar

E se o saco de pancadas sumisse?
E se depois do talco, ataduras e luvas postas restasse apenas a corrente sacudindo vazia? 
E se o punho fechado, de repente, batesse no ar? 
Talvez então os socos não fossem mais necessários.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Calos


Quando machucas
não escrevo, calo.
sepulto em mim cada vez que me fazes percorrer a longa estrada da solidão. 
Levo os calos nos pés. 
sigo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Guaraná champagne

O Guaraná champagne borbulha no copo vazio de fé.
A laranja vai e vem como nós dois: com pressa, sem direção, perdida no espaço.
Ela é inteira sendo fatia, pedaço, metade.
O guaraná champagne borbulha ferindo a laranja, como fazes comigo.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Castelo

Fantasmas e monstros gritam e chutam, antes de abandonar o castelo. 
Da torre os vejo partir.
Não reajo.
Prefiro estar absolutamente sozinha novamente.

Vou ao calabouço. 
Lá vejo as marcas da tortura na prisioneira. 
Apenas a parte quebrada daquela que entrou. 

Fujo.
Corro para a floresta escura.
Lá não há rei ou rainha.
Não há ninguém. 
Corro. 
Estou Perdida na imensidão que ronda o castelo que um dia foi meu.
Corro desesperada.
Sou inteira novamente.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mesa posta

Então não valeu nada?

Somos resto de comida sobre a mesa,
Guardanapos amassados,
Copos usados,
bagunça no coração.

De tudo o que fizemos certo,
Doença contagiosa,
Teu desânimo engajado,
É toalha suja na mesa,
Prato quebrado no chão.

Lavar a boca,
Segurar as lágrimas, 
Sabão e esponja.  
resolverão?

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sozinha

Precisava de ti,
Muros me impediam de ver,
Já não conseguia pensar.
Saí correndo, agitada, ansiosa.
Fizeste de minha falha, separação.
De tua expectativa, abandono.
De meu equivoco, castigo.
Precisava de ti.
Estava sem ver.
Atônita, aflita.
E ao fim, 
tu me deixaste mais sozinha.

domingo, 30 de junho de 2013

Greve

Cruzas os braços como trabalhador em greve.
Olhas para mim como se fosse eu máquina parada que já não produz aquilo que deveria.
A Máquina dos sorrisos pontuais,
Respostas exatas e sonhos diminutos.

Cruzas os braços como trabalhador em estado de greve.
Me fazes máquina. 
Já não há espontaneidade, riso, vontade. 

Cruzas os braços como trabalhador em greve.
Eu? Em estado de choque.

Ferida

Acreditou. 
o amor seria o suficiente,
Um pouco todos os dias,
Um pouco e para sempre.

Improvisar afetos era melhor que experimentar ausências,
Que o cotidiano de pequenos abandonos.

Mas o amor não ocupou os espaços, 
as feridas ficaram abertas:
Sujas, Infeccionadas.
Ali.
Para serem lembradas.




quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ouvindo o som das ruas

Era 17 de junho e assisti as ruas serem tomadas com cartazes, garra, vida e indignação. Expressões de alívio, surpresa, felicidade. Era capaz de ver, em muitos, meu próprio rosto, há longínquos quinze anos, na Esquina Democrática de Porto Alegre, no dia em que participei de minha primeira manifestação. Nunca mais parei.

Nos últimos nove anos, tenho tido a responsabilidade de representar primeiro Porto Alegre, como vereadora, e depois o Rio Grande, como deputada federal. Tenho orgulho de militar em um partido que combateu a ditadura e que sempre esteve ao lado dos trabalhadores e do povo nas lutas sociais. Tenho orgulho de meus mandatos, pois sempre os coloquei a serviço de causas como a reforma política, os direitos humanos, a defesa dos direitos da juventude e da educação e saúde públicas.

Mas a luta, o povo na rua, as cartolinas pintadas à mão, faixas, bandeiras do Brasil enroladas no corpo, palavras de ordem, a diversidade, a beleza do que vocês fizeram - e me refiro a vocês que não caíram na armadilha da violência e que protestaram em paz! - a beleza do que vocês construíram, fez com que o Brasil parasse para escutar o gigantesco som do sonho de um País melhor, com transporte público de qualidade e preço justo e uma política melhor.

E que sonho lindo o sonho de uma política melhor, mais representativa! Qual sonho mais lindo para uma geração sonhar do que o de um país com direitos humanos, sem problemas na saúde e com educação de qualidade? Vocês representam a todos nessas lutas!

Escrevo, em mais dos que os 140 caracteres habituais do twitter, para dizer que tenho feito valer uma regra da natureza pouco usada na política: tenho uma boca e dois ouvidos.

Vocês fizeram com que todos nós parássemos para pensar. Quero ouvir muito mais o que vocês têm a dizer sobre os sonhos do Brasil do futuro.

Enquanto os ouço, também os vejo nas redes e nas ruas e renovo minha energia para a luta. Tenho certeza de que somos milhares, que queremos um Brasil mais justo. Juntos, ele é possível

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Gaga

Dar voz aos outros sempre foi mais fácil que superar a gagueira de meus próprios sentimentos.