domingo, 6 de setembro de 2009

7 de setembro: de que lado tu sambas?


Recebi alguns emails questionando o que teríamos para comemorar nesse 7 de setembro, independência do Brasil. Respondo sem medo de errar: muito. Temos muito o que comemorar e muitas lutas para tocar. Costumo brincar em Brasília que a única mais jovem que eu por aquelas bandas é a democracia. Nossa jovem democracia, entretanto, já deu provas de sua força e vitalidade. Nesses vinte anos de eleições diretas tivemos um Presidente que caiu, um vice que assumiu, um sociólogo neoliberal e um operário desenvolvimentista. Enfrentamos dezenas de crises políticas e não caímos em nenhuma tentação golpista (não que muitos não quisessem, o povo soube de que lado sambar). Estivesse eu escrevendo como estudante de Ciências Sociais diria que isso já é o bastante. Mas sou militante, agora deputada, comunista e tenho que dizer: isso é não é o suficiente. Temos outros motivos para comemorar.

Vivemos seis anos e meio de um novo ciclo em nosso país. Um ciclo de desenvolvimento nacional, com fortes investimentos sociais e retomada do papel do Estado. Um momento em que nossa soberania respira aliaviada: estamos integrados regionalmente, nosso comércio não depende apenas dos EUA, somos respeitados mundialmente por nossas decisões políticas. Onde está o FMI? Onde está a ALCA? Onde estão as bases militares dos EUA? Isso é independência.

Vivemos um momento em que a economia (mesmo com seus limites conservadores) não é vista (ao menos pelo Presidente) como números parados. Se enfrentamos a crise economica mundial de cabeça erguida é porque investimos muito em infra-estrutura e em políticas sociais. Digo mais: vinculamos as duas áreas. Ou o que são as casas populares que geram muitos empregos (que garantem o consumo)? O que são as obras de saneamento (só não dá valor quem nunca viu uma criança brincar dentro do esgoto)? O que é o poder da valorização do salário mínimo e a bolsa-família nesse momento de crise? Onde está o apagão? Na educação temos o dobro de vagas nas universidades federais, abrimos mais escolas técnicas do que em toda a história do país. Ou isso não é desenvolvimento? Não é isso que garante que a gente produza conhecimento, tecnologia e seja independende de fato?

Estamos na semana do lançamento do marco regulatório do Pré-sal. Refutarmos a tese do deus-mercado e abraçarmos a idéia de uma estatal não é valorizar o estado e a soberania dele? Ou o mundo não vive guerras pelo Petróleo? Certo, certo. A imprensa é contra. E não foi contra a criação da Petrobrás há mais de cinco décadas? Se o dinheiro do Pré-sal for usado para um fundo de desenvolvimento social, não pode ser um novo marco da independência nacional?

Eu não tenho a menor dúvida de que o povo brasileiro precisa de muito mais. Mas temos que começar.

Não ver motivos para comemorar é, em minha opinião, não saber de que lado se samba. Eu sei. Eu e o PCdoB sambamos do lado do Brasil e do povo brasileiro. E sabemos que tudo aquilo que comemoraremos amanhã é o que nos dá forças para lutar há 87 anos por um Brasil para todos.

3 comentários:

Maurício Caleiro disse...

Belo texto e belíssimo blog (que visito pela primeira vez)!

O post deveria ser lido por todos os que continuam achando que o governo Lula limitou-se a reproduzir o modelo econômico de FHC - notadamente por uma certa elite acadêmica que, como sói acontecer com as elites, prefere o conforto da crítica a tudo e a todos ao reconhecimento de conquistas, ainda que estas sejam insatisfatórias.

Afinal, "Refutarmos a tese do deus-mercado e abraçarmos a idéia de uma estatal não é valorizar o estado e a soberania dele?"

Luiz Octavio Bernardes disse...

Manuela,
Admiro sua coragem, sua redação, sua jovialidade. Mas tendo a discordar da divisão dos períodos pós-çonstituinte de 1988. Tivemos um governo neo-liberal, é verdade. E, em sequência um governo de partidos de esquerda. Mas o processo democrático é único. Assinalar o marco regulatório do Pré-sal como o divisor de águas que diminuiu o Deus-mercado e pretende aumentar o controle estatal sobre a atividade extrativista de uma commodity é reduzir os 187 anos de história independente do Brasil a uma discussão momentânea, que daqui a 5 ou 10 anos, pouco ou nada significará.
Creio que os períodos Itamar-FHC e Lula tem mais semelhanças que diferenças. O que é ótimo. Nossa democracia não merece viver oscilando de um extremo ao outro do ideário político.

Diogo disse...

Deputada Manuela,
Ótimo texto! Aliás, te sigo lá no Twitter, gosto das suas postagens e estou atento às suas dicas de leitura, música, poesia...
Uma pergunta: Pensas em alçar vôos e tentar o senado? Vc seria uma ótima e necessária novidade por lá. Se fosse aqui em BSB, votaria em vc! []s Diogo Rangel (@dodorangel)