domingo, 27 de setembro de 2009

A moça dos anéis

Era início dos anos 2000 e ela vendia anéis nos bares da Cidade Baixa. A Cidade Baixa era diferente da de hoje em dia. Eram bares para conversar. Nos reuníamos militantes de todos os partidos, eram mesas de movimento estudantil, mesas de sindicalistas. Noutras ficavam artistas, falavam de teatro, cinema. Era outra Cidade Baixa. Ela vendia anéis. Voz estridente, cabelos negros, longos e crespos, opiniões sobre tudo, sobre o mundo, sobre nossos partidos, sobre nosso visual, sobre nossos namorados, sobre a noite, sobre a vida. Era alegre. Uma vez a vi chorar. Por algum homem que partiu seu coração e a agrediu fisicamente. Ela viu a todos nós chorar, certamente. Era dessas figuras constantes como o uruguaio dos incensos, a tia de cabelo roxo, o moço do amendoim.
Hoje, após sair da Conferência do PCdoB em Porto Alegre, após passar esse dia de chuva dentro da Assembléia Legislativa, após debater o desenvolvimento do Brasil, após ver a essa geração de militantes desta Cidade Baixa serem eleitos dirigentes do Partido, após me emocionar pelas palavras de alguns militantes, após ver o Fernandinho ser eleito presidente do partido, após apurar votos, fomos caminhando até a Casa de Cultura Mário Quintana tomar um café, comer, comemorar. Despertar o poeta, como diria a Ju Cony. No caminho, sentada num degrau, consumida pela vida, pela chuva, pela maldita pedra do crack, uma moça falava sozinha. Olhei. "Não conhece mais as pessoas?", perguntou uma voz estridente. "Meu Deus, como estás diferente!", respondi ainda conectando as informações. Sim, era a moça dos anéis, meu deus, era a moça dos anéis!!! "Tu notou que eu cortei os cabelos?", riu, tentando transformar toda a sua diferença em um corte de cabelo.
Seguimos caminhando. Tomamos nosso café. Não consigo tirar a imagem dela da cabeça. Que mundo é esse que transforma a alegria das pessoas em tanto abandono e dor? Que mundo é esse em que uma pedra derrota as pessoas? É por isso mesmo que lutamos não? Para não deixar que as coisas sejam mais importantes do que as pessoas, para não deixar a vida ser consumida por morte, para garantir que os sorrisos sigam sorrisos.

4 comentários:

Luz! disse...

esse texto foi tocante...

Vivi disse...

Sabe eu me faço essas perguntas muitas vezes.
Você estava na comemoração da UJS aqui em São Paulo? Eu queria me tornar militante também, procurei me informar e ouvi duras criticas mas também ótimas referências, assim como as suas, então eu resolvi que independente das diversas opiniões seria bom eu construir as minhas próprias, ao inves de aderir de alguém. Eu sempre acompanho seu blog e acho muito legal da sua parte reservar um tempinho do pouco que lhe sobra, para nós... Seus projetos são ótimos assisti a entrevista foi ótima.
beijos

Repórter Cidadão disse...

MANUELA É AFASTADA

"(BRASÍLIA-DF)A jovem deputada Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) participava de evento no Serpro, do Ministério da Fazenda, quando foi alvo da chefe do cerimonial, Ana Beatriz Amorim, afastando-a de ministros, rispidamente, por confundi-la com jornalista. Manuela e o colega Marco Maia (PT-RS) foram embora inconformados. Depois ficaram sabendo tratar-se da mulher do chanceler Celso Amorim."*

Ki koisa, heim, Manu!



Repórter Cidadão

*http://www.claudiohumberto.com.br/principal/index.php

Bruna disse...

Vejo isso todos os dias, sinto isso todos os dias. É muito dolorido perder pessoas, mesmo que seja de vista ou para um caminho sem volta como a pedra de crack.
Beijo Manu